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As vozes de dentro

Há momentos em que eu simplesmente não sei o que fazer. Eu olho para o lado e não vejo respostas. Então, nessas horas eu pergunto a minha Intuição:  "Quais são os próximos passos?" Mas, no primeiro instante, quem levanta a mão sem pensar duas vezes e quer tomar a palavra é a Ansiedade.  Ela, então, traz à tona uma avalanche de sensações e faz ainda mais perguntas, "e se...", que não ajudam muito e ainda me fazem sentir ainda mais culpada, já que não posso voltar ou adiantar o tempo.  Em uma tentativa de amenizar, procuro ouvir atentamente as experiências das outras pessoas e muitas vezes percebo anseios e situações iguais ou similares às minhas. Isso me faz perceber que nós estamos sujeitos a sentir medo e ter inseguranças, inclusive eu.  Peço a ela, então, que me dê um tempo. Uma vez que a Ansiedade é silenciada, o que vem à tona é a Razão. A razão, sensata, dá bons conselhos, que são sempre benéficos ao serem colocados em prática, como por exemplo, cuidar melhor d...

Quando eu encontrei a felicidade

Fui um poço de lamúrias durante a adolescência. Eu costumava filtrar a vida com um olhar voltado para o trágico. Até que um dia, me peguei sem paciência para o drama, possivelmente até parecido com os meus. Não foi por mal. Desconfio que o motivo foi outro: aconteceu no caminho até o meu parque preferido, durante o café da manhã, lendo um livro, apreciando o pôr do sol, na varanda, pensando no fato de ter uma varanda, no tal do home office, em uma liquidação, na promoção do supermercado, no passeio de bicicleta, no chá quentinho, na roupa lavada. Nos perrengues, afinal é gratificante olhar para trás e ver como é possível ir longe. Ali, em algum lugar, encontrei a felicidade. Sim, estava escondida.

stalker do tempo

De vez em quando, eu faço um regresso ao passado. Tempo que já passou, tempo que já curou. Por meio de nomes, lembranças e alguns cliques, retorno a lugares por onde já passei. Busco por rastros meus e dos outros. Lembro-me de certa situações, me comovo, me alegro, me entristeço. Digo que não vai mais se repetir, ou penso "Por que deixei de fazer isso?". É um modo de lapidação. Daí, me deparo com o óbvio: há de tudo. Quem mudou, quem permanece igual, quem cortou o cabelo, quem decidiu usar natural. Mas não há ganhadores ou perdedores, como disseram para a gente lá trás. Não nesta vida. Há escolhas. Diferentes. Cada um de nós fez uma delas. 

Me mande notícias boas (parte 2)

Psiu, tá aqui? Talvez você tenha errado o meu e-mail. Sim, eu aquela que me cadastrou em mais de newsletter, mas que, por algum motivo, só recebo e notícias ruins.  To tentando mudar esse jogo. Então, me diga que aquela promoção rolou. Que as fronteiras abriram para todos. Que a vacina que é acessível. Que hoje de manhã você acordou com um sorriso.  Me diga que lá fora ainda está sol. Que a temperatura está ótima. Que não há nuvens no céu. Que está permitido voar. Que de uma vez por todas podemos respirar.  Que já sabemos diferenciar o tédio do ócio. Que foi um erro no sistema, mas agora está resolvido. Que, no fundo, você até gosta daquele finzinho de domingo.  Pode ser qualquer coisa boa. Até uma coisa boba. Estamos aceitando.

AR livre

 Assim como muita gente, decidi praticar yoga durante a quarentena. Um dia, surgiu a oportunidade de realizar uma aula na praia, ao ar livre. Me juntei a cerca de 15 pessoas, todas a uma distância de 2 metros e usando máscara. Entre as instruções de “inspira encheeee os pulmões, expira soltaaaa o ar” que fazem parte da prática, notei que todos ali tinham um objetivo em comum: RESPIRAR. Este, que é um ato fundamental para a saúde humana. Até pouco tempo atrás, era livre, sem restrições, acessível a maioria de nós. Está difícil manter a prática de ioga, assim como há dias em que é difícil respirar ao ar livre. Mas, não só é necessário, como vital continuar tentando. Respirar para acalmar. Respirar para pensar. Respirar para se concentrar. Respirar para se movimentar. Respirar para, literalmente, não pirar.

Ela disse adeus

Nunca aprendemos a dizer adeus. A palavra, algumas vezes, soa até ofensiva. Dizer "adeus" é como renunciar, dizer que perdeu o jogo, se render. Mesmo quando já não há mais compatibilidade de valores com o namorado, quando o emprego parece não ir para frente, quando as brigas familiares se tornam frequentes, quando chorar vira rotina: tudo é mais aceitável do que dizer adeus. Por que quem garante o que tem atrás da porta do adeus? Mais problemas? Mais namorados que não sabem o que querem da vida? Mais familiares difíceis de lidar? Mais empregos ruins? Mais dias de angústia? Para isso, não. Muitos preferem ficar onde estão. Dizer "tchau" não carrega o peso da existência. "Tchau" não exige explicações. Deixa as coisas em aberto, não coloca ponto final. Enquanto isso, quem diz adeus precisa ir de uma vez só. A eles, não vale mudar de opinião, rever os fatos. Resta apenas aceitar e carregar o peso da escolha. No entanto, não pense que no mundo inteiro é assim. ...

Ninguém me ensinou

Carolina nunca entendeu direito a mãe. Nunca conversaram sobre questões existenciais. Não recebeu conselhos de como lidar com o coração partido, não aprendeu a negociar salários mais altos. Tinham medo de que, por causa disso, virasse uma figura ofuscada, uma carta fora do baralho, uma mulher que nunca viveu os próprios sonhos, porque não soube como fazer isso. Sua mãe, apesar de nunca ter esclarecido seus anseios, estava sempre ali. Dava presente nas datas comemorativas. Reforçava que existiam pastas de dentes melhores do que a Colgate.  Ligava. Ligava até demais. Antecipava os riscos, se preocupava. Sobretudo, mesmo com todos os medos, apoiava. E foi aí que Carolina entendeu. As questões existenciais, os flertes com os garotos, a busca por salários melhores… nada disso foi ensinado nem a ela, nem à sua mãe. Nada disso foi ensinado a ninguém. Pois só o que se pode ensinar é amar, cuidar e seguir o seu próprio caminho. O que aprendemos no caminho é consequência.