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Ela disse adeus

Nunca aprendemos a dizer adeus. A palavra, algumas vezes, soa até ofensiva. Dizer "adeus" é como renunciar, dizer que perdeu o jogo, se render. Mesmo quando já não há mais compatibilidade de valores com o namorado, quando o emprego parece não ir para frente, quando as brigas familiares se tornam frequentes, quando chorar vira rotina: tudo é mais aceitável do que dizer adeus. Por que quem garante o que tem atrás da porta do adeus? Mais problemas? Mais namorados que não sabem o que querem da vida? Mais familiares difíceis de lidar? Mais empregos ruins? Mais dias de angústia? Para isso, não. Muitos preferem ficar onde estão. Dizer "tchau" não carrega o peso da existência. "Tchau" não exige explicações. Deixa as coisas em aberto, não coloca ponto final. Enquanto isso, quem diz adeus precisa ir de uma vez só. A eles, não vale mudar de opinião, rever os fatos. Resta apenas aceitar e carregar o peso da escolha. No entanto, não pense que no mundo inteiro é assim. ...

Ninguém me ensinou

Carolina nunca entendeu direito a mãe. Nunca conversaram sobre questões existenciais. Não recebeu conselhos de como lidar com o coração partido, não aprendeu a negociar salários mais altos. Tinham medo de que, por causa disso, virasse uma figura ofuscada, uma carta fora do baralho, uma mulher que nunca viveu os próprios sonhos, porque não soube como fazer isso. Sua mãe, apesar de nunca ter esclarecido seus anseios, estava sempre ali. Dava presente nas datas comemorativas. Reforçava que existiam pastas de dentes melhores do que a Colgate.  Ligava. Ligava até demais. Antecipava os riscos, se preocupava. Sobretudo, mesmo com todos os medos, apoiava. E foi aí que Carolina entendeu. As questões existenciais, os flertes com os garotos, a busca por salários melhores… nada disso foi ensinado nem a ela, nem à sua mãe. Nada disso foi ensinado a ninguém. Pois só o que se pode ensinar é amar, cuidar e seguir o seu próprio caminho. O que aprendemos no caminho é consequência. 

Adolescência

  Às vezes dá saudades  Dos tempos de adol escência Em que éramos como flores Espalhando a nossa essência É o caminho certo E o errado E o veneno E o antídoto É tóxica É libertadora E a dúvida E a resposta É a rebeldia E o senso comum É um dia ensolarado Dentro do quarto fechado É um disco riscado É um caderno rabiscado É uma mentira Feita de verdade É só uma fase Que vale a eternidade Às vezes, dá saudade Dos tempos de adol escência Em que éramos como flores Espalhando a nossa essência

De pijama

Durante anos, você trabalhou todos os dias, com sol ou chuva, com trânsito ou alagamento, tendo a família para cuidar. Agora, muitas empresas descobriram maneiras de aderir ao home office. “Acorde, tire o pijama e vista-se como se você fosse trabalhar” dizem as recomendações.  Quem acha elegante trabalhar em casa, viu que talvez não seja tão fácil assim. É preciso se organizar, lidar com o barulho da máquina de lavar, não esquecer a comida no fogão e tirar o pijama. “Para que, se ninguém vai me ver de corpo inteiro?”, questionam. Cursos online passam a valer tanto quanto os presenciais. Você, apenas com um computador, pode trabalhar, estudar, praticar exercícios físicos e até aprender novas receitas. Sem precisar tirar o pijama, quanta tecnologia! Nunca se consumiu tanta arte. “Já perdi a conta de quantos filmes eu vi nos últimos dias”, pensavam. Um luxo essas atividades que podem ser feitas de pijama. A tarde, desconhecidos re-aprenderam a se comunicar pela janela: por meio de apl...

Obrigada, Jobs

Em meados de 2014, assisti a cinebiografia "Jobs". O que mais me chamou atenção na história por trás do dono da Apple é o fato dele nunca ter concluído a faculdade. Dizer a não faculdade naquela época era como dizer não ao casamento nos anos 20, ou seja, a receita para uma vida infeliz, sem grandes feitos. A faculdade foi a maneira que nossos pais encontraram para garantir a nós o que eles não tinham: realização profissional .  Vim de uma geração que foi estimulada a fazer o que gosta desde cedo e a encontrar na profissão a realização de todos os sonhos.  O problema é que a escolha precisa ser feita aos 18 anos. Que esqueceram de avisar aos jovens que muitas profissões nem sequer existiriam no futuro. Que a disputa seria desigual, que seria necessário se submeter a uma série de testes, não só acadêmicos mas também emocionais, para conseguir uma vaga de trabalho.  Que seria preciso trabalhar por horas para ver o negócio de uma outra pessoa que muitas vezes nem sabe o seu ...

Amor para todos

Eu pensava que o amor era somente para alguns. Os passarinhos que cantam de manhã. As mães que veem os filhos felizes. Os casais que se conhecem na adolescência e passam o resto da vida juntos. Os filmes franceses. Eu pensava que o amor era para todos, menos para você e eu. Você, que me pede para ficar. Que compartilha histórias e ouve as minhas. Que faz o café e, às vezes, o jantar. Que me ajuda a reciclar potes de vidro e me ensina como plantar. Que sonha como um adolescente, mas se preocupa com as contas como um adulto. Que procura um bom lugar para dividir a comida e também a vida. Talvez, mas apenas talvez, o amor seja para a gente também. Créditos: Reprodução Pinterest/ rabiakhanalizai

Barbie motorista

E stávamos a caminho de Alicante. Pegamos uma carona com horário marcado pelo aplicativo Blablacar, similar ao Uber na Europa. O carro parou no ponto de encontro e de lá saiu uma mulher. Entre os vários carros que já pedi por aplicativo, poucas vezes vi mulheres condutoras. Ela não era a única, mas uma das poucas.  Cabelos loiros, alta, usava um boné e uma roupa de academia em tons de rosa. Até sua máscara, que devido ao COVID-19 somos todos obrigados a usar, era rosa. Conversamos e ela contou que é modelo. Disse que trabalha muito e viaja na mesma proporção. Reclamava e declarava seu amor as passarelas. A princípio, pensamos que se tratava de uma polonesa. Porém, ela veio de algum lugar da Rússia. Ela aproveitava sua liberdade, enquanto dirigia sem medo, com confiança, ao som de Rihanna, Backstreet Boys e outras músicas Pop. O sonho de qualquer garota. Sentei ao seu lado no banco de passageiro. Fizemos uma parada na estrada. Meu namorado me perguntou se eu queria um sorvetinho. El...