Os contos que não te contei - Um encontro com a noite

Catarina vestia-se de preto, como a noite, e saía. Era sempre o mesmo lugar. Como uma boa amante da noite, era só depois do entardecer, que ela se permitia ser. Sentava-se em uma das mesas e esperava por sua música preferida: 

"Say goodbye on a night like this/ If it's the last thing we ever do/ You never looked as lost as this/ Sometimes it doesn't even look like you” (Dizer adeus numa noite como esta/ Se for a última coisa que fizermos/ Você nunca pareceu tão perdido como agora/ Às vezes nem o reconheço). 

Havia algo emblemático nessa música, que conduzia sua memória aos momentos em que ela, sozinha, desfrutava da própria companhia. Era quase como se ela pudesse sentir e tocar a noite. Um toque especial, suave e acolhedor. Um ombro amigo. Ela não tinha medo do escuro; pelo contrário. Nos espaços vazios onde a luz não alcançava, sentia que podia mergulhar. Havia o desejo. Afinal, a noite é sedutora. Sagaz. Elegante. O seu perfume é doce, feito uma flor. Gosta de dançar, extravasar, cantar bem alto. Sair do tom, em busca de diversão. 

A música continuava ao fundo: "I'm coming to find you if it takes me all night/ A witch hunt for another girl" (Vou procurá-la, nem que leve a noite toda/ Uma caça às bruxas em busca de uma garota). 

Ela desejava a noite mais do que a noite a desejava. Planeava. Passava horas conversando com a noite. Não se perguntava se a noite era homem ou mulher; tanto fazia. Sabia que a noite podia ouvi-la, e isso bastava. No entanto, se pudesse arriscar, diria que a noite era uma mulher. Uma mulher que se desprendeu dos desejos alheios e assumiu os próprios. Uma mulher que, enquanto os outros teciam comentários sobre a sua vida, estava ocupada demais vivendo para notá-los. Uma mulher que às vezes precisava ser fria, misteriosa e obscura. Às vezes, perigosa. Tinha vícios, e por isso alguns precisaram se afastar dela. A noite sempre queria mais e se irritava facilmente com a chegada do dia.

Naquele momento, Catarina sentia uma conexão com a noite difícil de explicar aos outros. E assim foi ao longo dos seus 17, 18, 19, 20 anos. Hoje, a noite tornou-se uma das suas melhores lembranças. Catarina recorda detalhes que aquecem a sua memória sempre que se senta ao sofá e cobre as suas pernas com uma manta que a protege do frio. Diferente dos outros, ela não precisa de TV ou vídeos. Só precisa de uma música, “A Night Like This", para sentir e tocar a noite mais uma vez.

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